Artesanato acreano transforma ancestralidade indígena em renda e identidade cultural


Uma técnica artesanal inspirada no macramê e marcada pelo entrelaçamento minucioso de fios tem dado novas formas a um dos símbolos mais fortes da ancestralidade amazônica: o cocar. Na Casa do Artesanato, em Rio Branco, peças produzidas por artesãos acreanos unem tradição, empreendedorismo e identidade cultural, consolidando o espaço como uma das principais vitrines da arte regional.
Instalada atualmente na Galeria Juvenal Antunes, na Gameleira, ao lado da Fundação Elias Mansour, a Casa do Artesanato reúne trabalhos de 140 artesãos, dos quais 110 são mulheres — o equivalente a 78,6% dos empreendedores locais. O espaço funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e aos sábados e domingos, das 13h às 17h.
Entre as artistas que ajudam a espalhar as cores da Amazônia para além das fronteiras acreanas está Cleide Lima Clemêncio, que há sete anos atua com peças decorativas e, nos últimos três, passou a se dedicar à produção de cocares artesanais. Inspiradas na fauna, na flora e na estética indígena, as obras são definidas por ela como “esculturas têxteis”.
“Conheci a técnica pela internet e aprendi praticando. O artesanato sempre esteve presente na minha vida. Aprendi crochê com minha mãe e minhas tias e encontrei nessa arte uma forma de continuar empreendendo”, conta.
As peças produzidas por Cleide ganharam mercado fora do Acre e até do Brasil, com encomendas enviadas principalmente para países da Europa. Segundo a artesã, muitos compradores procuram objetos que simbolizem suas origens ou experiências vividas na Amazônia.
“O mais gratificante é o retorno dos clientes. Quando recebem o trabalho e demonstram admiração por algo feito à mão, produzido por uma acreana, isso não tem preço”, afirma.
Além das vendas pelas redes sociais e aplicativos de mensagem, a exposição na Casa do Artesanato ampliou a visibilidade do trabalho da artista. Para ela, o espaço exerce papel fundamental na valorização dos produtores locais.
“As meninas da Casa recebem visitantes do mundo inteiro e apresentam nossa arte, nossa visão e a forma como nos expressamos enquanto artistas. Isso é muito importante para mim”, destaca.
Natural de Cruzeiro do Sul, Cleide diz sentir orgulho ao ver suas obras alcançando outros países. “Levar a identidade do Acre, as cores da nossa fauna e o orgulho de ser acreana é incrível”, resume.
A coordenadora estadual do artesanato acreano, Risoleta Queiroz, explica que os artesãos precisam emitir a Carteira do Artesanato para expor no espaço. O processo inclui cadastro no Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (Sicab) e uma curadoria das peças produzidas.
Segundo ela, o local se consolidou também como ponto turístico da capital acreana.
“Quando os turistas chegam, conseguem observar cada peça e ouvir a história que ela carrega. Muitos artesãos têm na Casa sua principal fonte de renda, e as vendas são excelentes. Hoje, é um espaço de grande circulação e apreciação”, afirma.
O alcance do artesanato acreano pode ser medido pela experiência do geógrafo Rodrigo Frota, acreano radicado em Massachusetts, nos Estados Unidos. Admirador da cultura amazônica, ele conheceu o trabalho de Cleide durante uma visita à Gameleira e decidiu levar uma das peças para casa.
“Eu buscava algo que traduzisse as cores, a cultura e a força da Amazônia. Quando vi o trabalho dela, fiquei impressionado. Existe muito cuidado e amor em cada detalhe”, relata.
Para Frota, possuir uma peça artesanal acreana é também uma forma de manter viva a conexão com suas origens.
“Tenho muito orgulho de mostrar o Acre por onde passo. Essas obras vão além da estética, carregam significado, história e identidade”, afirma.
A relação entre cliente e artesã acabou evoluindo para uma parceria nas redes sociais. Um sorteio promovido no perfil de Rodrigo, no Dia dos Povos Indígenas, ajudou a ampliar ainda mais o alcance do trabalho da artista, alcançando mais de 15 mil visualizações.
Enquanto conquista admiradores em diferentes partes do mundo, o artesanato acreano segue transformando tradição em sustento, fortalecendo a economia criativa e reafirmando a identidade cultural da Amazônia por meio de peças feitas à mão e carregadas de pertencimento.
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